Mostrando postagens com marcador Andrew Stanton. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Andrew Stanton. Mostrar todas as postagens

sábado, 19 de junho de 2010

Crítica: Wall-E

Uma odisseia "chapliniana" no espaço


Wall-E tem início com a forte imagem da atual situação (no filme, não a nossa… ainda) do Planeta Terra: pilhas de lixo compactado, quente e praticamente deserto, a não ser pelo autor da compactação do lixo: Wall-E (Ben Burtt). O robozinho foi criado e programado pra isso, pra limpar a Terra enquanto os humanos fugiram pra viver em uma nave no espaço, a Axiom. É claro que não era somente ele, eram vários, mas só este aguentou as condições climáticas e o trabalho excessivo e contínuo depois de 700 anos! Até que um dia surge uma nave estranha do céu e dela sai uma robô diferente, branca, “moderna” (seu design foi feito com a ajuda de designers da Apple) e feminina. É EVA (Elissa Knight), a quem o solitário Wall-E (só tem a companhia de uma simpática baratinha) logo se interessa e passa a seguir. No começo ela não dá atenção ao nosso protagonista, mas ele é insistente e logo ela (junto com a gente) começa a ceder aos encantos do robozinho, até que algo inesperado acontece e a nave volta pra buscar EVA e Wall-E, desesperado, vai atrás dela. E vai parar justamente na nave onde os humanos vivem.

O primeiro “diálogo” do filme surge apenas aos 23 minutos de projeção. Apesar da “demora”, o filme não é em momento algum cansativo, já que todo esse primeiro ato serve pra mostrar a degradação da Terra causada pelos humanos. Tudo é feito com maestria graças ao excelente design de produção, ao excelente trabalho do diretor Andrew Stanton, que conduz com soberba habilidade a narrativa e, também, graças à trilha sonora de Thomas Newman, indicada ao Oscar. A fotografia também é outro ponto alto, com suas cores saturadas. Aliás, o diretor de fotografia contratado é ninguém menos que Roger Deakins, conhecido por ter fotografado filmes como O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford, Uma Mente Brilhante, O Leitor, além de vários trabalhos com os irmãos Coen. Todo esse design do primeiro ato serve pra fazer um contraste maravilhoso com tudo que encontraremos na Axiom; todas as cores, a tecnologia evoluidíssima etc.



Também no primeiro ato, a personalidade de nosso querido robô que batiza o filme é completamente desenvolvida. E temos aqui um exemplar eletrônico de Charles Chaplin! Sim, queridos leitores, Wall-E nada mais é que uma homenagem a um dos maiores ícones do cinema de todos os tempos. A pureza, a simplicidade, a curiosidade, o jeito atrapalhado, a paixão por experiências novas e os olhos. Sim, Wall-E se comunica e expressa suas emoções de maneira sensacional com seus olhos, bem como Chaplin (quem não lembra do olhar do Vagabundo no final de Luzes da Cidade?). E o que dizer da coleção de Wall-E? Retira do lixo os objetos que ele se encanta, desde cubo mágico, até lâmpadas. E sem esquecer, é claro, da fita do filme Alô, Dolly, de 1969, o filme preferido de Wall-E (será que não é o único filme que ele conhece?). Uma imagem que contém um simbolismo enorme é uma em que ele encontra uma caixinha com anel brilhante dentro e logo se livra do anel e fica com a caixinha.

A turma de coadjuvantes também não fica atrás. EVA puxa o grupo como o interesse de Wall-E, determinada e inteligente, ela se encaixa perfeitamente na personalidade do protagonista. M.O., o robozinho aficcionado por limpeza, é garantia de sinceras risadas em todas as suas cenas e se firma (porque não?) como um dos melhores e mais divertidos coadjuvantes da filmografia da Pixar. E AUTO, praticamente uma re-encarnação de HAL9000, de 2001 – Uma Odisseia no Espaço, também rivaliza com os outros personagens em cena. Falando em 2001 – Uma Odisseia no Espaço, é interessante observar as inúmeras homenagens que Wall-E presta ao maior clássico da ficção-científica dirigido por Stanley Kubrick. As mais óbvias são o AUTO e a música Assim Falou Zaratustra, o eterno “tema” do longa de Kubrick.



O filme teve seis indicações ao Oscar em 2009, mas poderiam (deveriam) ter sido sete, pelo menos, já que a Disney fez forte campanha pra que Wall-E estivesse entre os indicados a Melhor Filme, não apenas entre os de Melhor Animação. O que, infelizmente, acabou não acontecendo, gerando até um certo desconforto na Academia, com a evidente injustiça. Injustiça essa, que a Academia tentou consertar colocando Up – Altas Aventuras na categoria no ano seguinte. Além de Melhor Animação (o único Oscar que Wall-E levou pra casa), o filme foi indicado a Melhor Roteiro Original, Melhor Trilha Sonora, Melhor Canção Original (Down to Earth) e Melhor Som e Mixagem de Som, que foram feitos pelo ilustre Ben Burtt, que fez os sons de Star Wars.

Wall-E se firma com uma clássico contemporâneo, como um dos grandes e mais importantes filmes desse século. Intelectualmente, o filme mais trabalhado. O mais adulto também, diga-se. Mesmo assim, o fascínio que Wall-E provoca não vê idades, já que conquista a todos. E é, diferentemente da maioria dos filmes que tratam da vulnerabilidade e fraqueza humana, extremamente otimista, onde somos guiados por um robô de volta ao caminho da redescoberta da importância de conhecer coisas novas, de viver coisas novas, de ser livre de preconceitos e/ou excessivo apego material, a resolução de que devemos aceitar diferenças, conviver com elas, aceitá-las e apreciá-las. Descobrir novamente que esse planeta é a nossa casa, e que temos que cuidar bem dela juntos, pois somos todos moradores dela. Pra ela, não há fronteiras de países, não há distinção de cor, credo ou opção sexual. E é assim que nós, humanos, devemos nos portar. Esse é o caminho. Wall-E é uma obra-prima. Uma ode ao amor. Uma ode à vida!





Nome Original: Wall-E
Ano: 2008
Duração: 98 minutos
Direção: Andrew Stanton
Roteiro: Andrew Stanton
Elenco: Ben Burtt, Sigourney Weaver, Elissa Knight, Jeff Garlin

Imagens: divulgação

terça-feira, 15 de junho de 2010

Crítica: Procurando Nemo

Quem disse que o fundo do mar é sem-graça?


Marlin (Albert Brooks) é um peixe-palhaço, vive feliz ao lado de sua esposa, Coral (Elizabeth Perkins), e suas centenas de ovas. Porém, acontece um ataque de um predador, com trágicas consequências: todos morrem, com exceção ao pai Marlin e o jovem filho Nemo (Alexander Gould). O trauma do ocorrido faz com que Marlin se torne um pai extremamente super-protetor, já que Nemo é tudo que lhe resta na vida. Mas essa super-proteção acaba limitando a liberdade do jovem peixinho, já que seu pai não permite que ele faça várias coisas, e também o torna motivo de piadas de seus colegas na escola. Com isso, Nemo decide mostrar ao pai (e aos colegas) que sabe se virar sozinho e parte para nadar no mar aberto, mas é capturado por um mergulhador, gerando imenso desespero no pai, que parte numa jornada mar afora pra resgatar seu filho, junto com Dory (Ellen DeGenerees), uma divertida peixinha que tem um grave problema de memória recente.

Tecnicamente, o filme é soberbo. Convenhamos, o fundo do oceano é um lugar dificílimo de se reproduzir, e Procurando Nemo o consegue com um enorme sucesso. Todas as paisagens, todas as criaturas (e quantas são!), toda a reprodução de rodovias, estradas, semáforos… tudo beira a genialidade e a perfeição. A fotografia (Sharon Calaham e Jeremy Lasky) submarina também é outro fator sublime do filme, com efeitos de iluminação maravilhosos. Outra escolha acertadíssima é a escolha de atores australianos para a dublagem, já que a história se passa na costa australiana.



Procurando Nemo tem uma série de excelentes piadas, desde tubarões que querem melhorar a imagem pública da espécie, passando por divertidas tartarugas surfistas, até situações envolvendo a (falta de) memória de Dory. Essa última, inclusive, devora todas as suas cenas, tomando conta do filme quanto está em tela. Não é à toa que Ellen DeGeneres, que dubla a Dory na versão original, recebeu uma indicação a Melhor Humorista no MTV Movie Awards por seu desempenho na dublagem da esquecida peixinha (não que a premiação inspire confiança, mas é um dado a se levar em conta).

Falando em premiações, a produção ganhou o Oscar de Melhor Animação na cerimônia de 2004. Além de ter sido indicada a Melhor Filme Comédia/Musical no Globo de Ouro e a outras três categorias da Academia: Melhor Roteiro Original, Melhor Edição de Som e, claro, Melhor Trilha Sonora. E que trilha sonora de Thomas Newman! Como já é padrão da Pixar, ela faz o filme crescer, seja nas sequências de ação ou nas cenas mais dramáticas.

Fazendo outro gancho: Procurando Nemo foi o primeiro filme da Pixar a investir assim tão pesado em cenas dramáticas, como a que Marlin sai gritando por Nemo, por exemplo. Outro fator que ajuda a aumentar a força dramática do filme é o uso ao limite da tecnologia da época, fazendo com que os personagens tenham expressões faciais absurdamente impecáveis. Repare na sempre preocupada feição de Marlin, nas engraçadíssimas expressões de Dory ou, então, na semelhança de Gill com o rosto de seu dublador, Willem Dafoe.



Mas nem tudo são flores. Após a captura de Nemo, o filme se divide em dois: um acompanha o jovem peixinho num aquário de um dentista, lutando pra voltar pra casa e para seu pai; o outro acompanha Marlin e Dory, na busca por Nemo. E isso faz com que o filme acabe parecendo episódico, já que as transições entre uma ponta e outra se dão de maneira pouco inspirada, caindo no lugar-comum. Demérito de Andrew Stanton, diretor e roteirista. Isso também compromete o ritmo da trama, afinal, sempre que ele está crescendo, somos jogados pra companhia do outro membro da família.

À época, Procurando Nemo foi um estrondoso sucesso, fazendo mais de 867 milhões de dólares na bilheteria mundial, sendo, até hoje, a maior bilheteria que um filme da Pixar já alcançou. E é a quarta animação que mais arrecadou mundialmente, ficando atrás apenas de Shrek 2, Alice no País das Maravilhas e Era do Gelo 3. Apesar de ser a maior bilheteria, é fato que este não é o melhor filme do estúdio, ficando bem atrás de obras-primas como Wall-E, Toy Story 1 e 2 e Up – Altas Aventuras, mas está no mesmo nível de Monstros S.A. e Ratatouille e superior ao Vida de Inseto. Mesmo assim, Procurando Nemo é muito melhor que quase todos os filmes lançados em Hollywood, sejam eles em animação ou não.





Nome original: Finding Nemo
Ano: 2003
Duração: 101 minutos
Direção: Andrew Stanton
Roteiro: Andrew Stanton
Elenco: Alexander Gould, Albert Brooks, Ellen DeGenerees, Willem Dafoe, Elizabeth Perkins

Imagens: divulgação

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Crítica: Vida de Inseto

O menos "pixariano" da Pixar


Imagine-se uma formiga. Agora imagine que seu formigueiro está sob o domínio de um grupo de gafanhotos psicopatas que exigem que vocês, formigas, juntem uma quantidade de comida para eles, caso contrário… bem, você sabe. Agora adicione duas características à sua personalidade: você é engenhoso, adora fazer invenções, mas é desastrado. Muito. Pronto, você já está no lugar de Flik (Dave Foley), protagonista de Vida de Inseto, segundo longa da Pixar. Só contando um pouco mais a história, pra que você possa entender: Flik inventou uma máquina pra acelerar a colheita de comida, mas por conta do seu histórico de invenções falhas, ninguém dá bola ou sequer aceita usar essa invenção. E não dá outra: a desastrada formiguinha acaba estragando tudo que foi colhido para os gafanhotos e o prazo para a entrega aos gafanhotos já está no fim, o que faz com que todos queiram expulsar o pobre Flik do formigueiro, mas ele se candidata pra ir além da Ilha Formiga buscar guerreiros para combater os malvados gafanhotos. Já prevendo um insucesso dele, a Princesa Atta (Julia Louis-Dreyfus) permite que ele vá.

A premissa é bacana e inteligente. Porém, com exceção ao protagonista Flik, nenhum outro personagem parece lá muito interessante. Pelo contrário. A pequena Dot (Hayden Panettiere), por exemplo, é sem-graça e extremamente insuportável. A Princesa Atta também é desinteressante. Hopper (Kevin Spacey), o líder dos gafanhotos, é caricato ao extremo, mas até funciona, já que sua figura está ali para mostrar um ditador cruel. Ao contrário de Molt (Ricahrd Kind), irmão de Hopper, que divide com Dot a posição de pior personagem do filme. O “exército de guerreiros”, que Flik arranja, também não gera um maior interesse, mas cumpre o simplório papel de apenas fazer rir.



Mas o filme tem um trunfo que dura pouco tempo em tela, mas já é suficiente pra encher nossos olhos e se fixar em nossa memória por um bom tempo: a cidade dos insetos, onde Flik arruma os seus guerreiros. Linda, toda feita com caixas de alimentos, movimentada e que faz uma reprodução perfeita das nossas grandes cidades e que ainda conta com homenagens a outros filmes da casa, como Toy Story e Rei Leão (esse último, só da Disney). Outro trunfo são duas passagens inspiradíssimas: a que a joaninha Francis (Denis Leary), macho, se irrita ao receber cantadas de dois insetos e desfere: “Por que todos acham que toda joaninha tem que ser fêmea?”; e uma frase dita por uma mosca: “Só tenho 24h de vida, não vou desperdiçá-la aqui!”. Isto é, duas passagens dignas do selo Pixar.

Falando no estúdio, é até cruel a comparação com os outros filmes dele, já que quando Vida de Inseto foi lançado, a Pixar tinha feito apenas um longa: Toy Story. Ou seja, o escorregão é compreensível e perdoável. E outra: nem é um escorregão tão feio assim. Mas uma comparação inevitável é com o longa, também de animação, FormiguinhaZ, que além de ter sido lançado no mesmo ano, o longa da DreamWorks também se passa num formigueiro. E aí a crueldade é enorme e, nesse caso, justificável. O filme, que tem Woody Allen como a formiguinha Z do título, ganha de Vida de Inseto em praticamente todos os quesitos: personagens, história, consequências dos atos etc.

O fator em que Vida de Inseto tem como vantagem sobre FormiguinhaZ é a trilha sonora, que foi, inclusive, indicada ao Oscar, perdendo para o grande vencedor da cerimônia de 1999, Shakespeare Apaixonado. É bom lembrar que nessa época ainda não havia a categoria Melhor Longa de Animação.



E talvez o maior ponto fraco do filme seja só fazer rir, não criando personagens mais interessantes, desperdiçando ótimas oportunidades de criar laços mais fortes entre eles e, também com isso, levantar mais questões sociais e imergir nelas sem medo (o que FormguinhaZ fez com tremendo sucesso), e não apenas mostrar superficialmente alguns pontos que poderiam ser mais importantes no filme, como a luta contra a repressão e a importância de pensar com a própria cabeça, e não apenas seguir o que já é pré-estabelecido sem ao menos ponderar se isso está bom, se é certo ou se pode melhorar. Lição essa que a Pixar mostrou ter aprendido muito bem, como demonstrou com louvor nos seus longas seguintes.

Vida de Inseto funciona como divertimento rápido, esquecível, com poucas piadas inspiradas, mas nenhuma fora de contexto, o que faz o filme inteiro rodar bem sem ser cansativo ou maçante. O diretor John Lasseter (que já havia demonstrado imenso talento com Toy Story) conduz bem o roteiro, não permitindo que o filme soe episódico. Mas é fato que, ao fim do filme, o sentimento é de que ele poderia ter sido bem melhor.





Nome original: A Bug’s Life
Ano: 1998
Duração: 96 minutos
Direção: John Lasseter e Andrew Stanton
Roteiro: Andrew Stanton e John Lasseter
Elenco: Dave Foley, Kevin Spacey, Hayden Panettiere, Julia Louis-Dreyfus, Denis Leary e Richard Kind

Imagens: divulgação
BlogBlogs.Com.Br