Ao infinito e além, onde cinco estrelas não são o suficiente
Primeiro veio
Toy Story, todo o apuro visual, os personagens que todos aprenderam a amar, o roteiro brilhante e a revolução no jeito de fazer um longa de animação: completamente feito em computação gráfica. Depois, o não tão bom – mas divertido –
Vida de Inseto. Em seguida, a sequência de
Toy Story, onde novos personagens surgiam e o universo era ainda maior e o filme no nível do primeiro. Depois, a conciliação de perfeição visual (já pararam pra pensar como é difícil fazer os pêlos do
Sully?) e estética (o melhor fundo do mar do cinema) com histórias lindas em
Monstros S.A. e
Procurando Nemo. Os problemas familiares de
Os Incríveis, a velocidade de
Carros e a amizade e repulsa ao preconceito de
Ratatouille. Daí, o aparente ápice do estúdio, com o chapliniano robozinho
Wall-E e todas as outras homenagens, principalmente a
2001 – Uma Odisseia no Espaço, que fez nos apaixonarmos pelo protagonista e pela
EVA. Mantendo o nível do anterior, chegou o badalado
Up – Altas Aventuras, com
Carl Frederiksen,
Russel,
Dug e
Kevin, colocando a
Pixar entre os indicados ao Oscar de Melhor Filme pela primeira vez. Sim, o ápice era aparente. Porque o que parecia perfeito, conseguiu melhorar, se aperfeiçoar. O novo ápice da Pixar é seu mais novo filme:
Toy Story 3.
O universo você já conhece: os brinquedos têm vida e fazem tudo pra que seus donos se divirtam com eles. A história do terceiro filme é a seguinte:
Andy (
John Morris), hoje com 17 anos, não brinca mais com seus brinquedos e, agora que vai sair de casa pra ir à faculdade, tem que escolher um destino para os brinquedos que restam. Andy, então, decide guardar seus amigos no sótão, com exceção de
Woody (
Tom Hanks), que ele guarda nas coisas que irão com ele pra faculdade. Por um acidente, todos os brinquedos vão parar como doação numa creche, a Sunnyside. Creche, essa, que parece o paraíso para brinquedos rejeitados, abandonados e esquecidos. Lá somos apresentados a diversos novos personagens. Agora Woody,
Buzz (
Tim Allen),
Jesse (
Joan Cusack) e companhia terão que enfrentar diversos desafios e percalços para voltar à casa de Andy.

Ao contrário do que um filme normal em um estúdio normal faria,
Toy Story 3 não transforma Andy num adulto frio. Pelo contrário, o roteiro de
Michael Arndt (
Pequena Miss Sunshine) mostra de maneira extraordinária que crescer não é fácil, e a hesitação de Andy de doar seus amigos de uma época inocente e pura que não volta mais, é não menos que soberba. Outro ponto forte do filme é já começar mostrando os brinquedos sob o olhar do Andy criança, para, em seguida, acompanharmos o crescimento dele sob os “olhos da mãe” (câmeras caseiras).
Desnecessário falar da abordagem do filme quanto à amizade, preconceito, autoritarismo, abandono etc. E o humor, então, que todos já conhecemos e adoramos, está lá. Tudo. Do jeito que a gente gosta. O mau-humor do
Sr. Cabeça-de-Batata, a covardia e inocência de
Rex, o Buzz voltando a achar que é um patrulheiro espacial, a “estabanação” de Woody… e agora um componente a mais: a “vaidade” de
Ken, o famoso boneco namorado da Barbie. E a personalidade de todos os personagens estão impecáveis, nunca caindo em clichês que facilmente poderiam acontecer. A firmeza demonstrada pelos brinquedos num momento em que tudo parecia perdido é tocante e genial.

Seguindo o padrão Pixar, tecnicamente o filme também é irretocável. A animação é sensacional como sempre, com movimentos fluidos e expressões fantásticas. A direção de arte também se sobressai: o quarto de Andy, antes mesmo dele aparecer mais velho, já denuncia seus novos interesses, já que o antigo e conhecido papel-de-parede de nuvens, agora está coberto de posters e tudo o mais; a creche também é muito bem feita, detalhista e real, combinando a sala comportada com a sala das crianças mais novas, desde a bagunça, objetos jogados, desenhos pendurados ou fixados à parede… tudo impecável. A fotografia também é estupenda, mudando sutilmente a paleta nos diversos ambientes, mostrando só com isso perigo, segurança ou alegria, mas o faz sem parecer ofensiva. Alguns efeitos de iluminação também engrandecem o trabalho de
Jeremy Lasky, diretor de fotografia (a “sala de tortura” é fantástica).
O clímax do filme é espetacular e desesperador, e conduzido de maneira perfeita pelo diretor
Lee Unkrich. A trilha sonora de
Randy Newman também não deixa por menos, e simplesmente se coloca a franca favorita ao Oscar 2011. Falando em Oscar, não é absurdo pensar que
Toy Story 3 não só repetirá o sucesso de
Up – Altas Aventuras, como deve também ser um dos grandes favoritos nas principais categorias. E todas as lágrimas acumuladas durante todo o filme, serão despejadas sem dó com a cena final. Este é o melhor filme do estúdio, e se continuar se superando desse jeito nos próximos filmes, se algum conseguir ser melhor que
Toy Story 3, vou começar a ficar com medo da Pixar.
Três adendos:
1 – O curta exibido nos cinemas junto com
Toy Story 3,
Dia & Noite, é simplesmente sensacional, lindo, tocante, inteligente e inventivo. Chegue com boa antecedência à sala de cinema pra poder assisti-lo já confortável na poltrona;
2 – O filme tem a aparição de um personagem que conhecemos no primeiro filme, será que você reconhece?
3 – Agora com a trilogia fechada,
Toy Story fica em pé de igualdade às trilogias de
Senhor dos Anéis e
Poderoso-Chefão como as melhores de todos os tempos.
Nome original: Toy Story 3Ano: 2010Duração: 103 minutosDireção: Lee UnkrichRoteiro: Michael Arndt, a partir de conceito de Andrew Stanton, John Lasseter e Lee UnkrichElenco: Tom Hanks, Tim Allen, Joan Cusack, Michael Keaton, Blake Clark, Don Rickles, John MorrisImagens: divulgação